domingo, 31 de março de 2019

" O VISITANTE ".

O senhor gordo tentou argumentar com o segurança do portão principal da entrada de visitantes do então desativado campo de concentração de Auschwitz. Ele mantinha a mão sobre o chapéu, para impedir que o vento o leva-se. -Não senhor- explicou o segurança-, desculpe, mas, o campo esta fechado para visitação... recebemos um aviso de que há uma forte tempestade de neve se aproximando. O senhor gordo agradeceu, deu meia volta e começou a andar na direção do estacionamento, desapontado devido à viagem perdida. Enquanto caminhava, reparou em alguém parado junto ao alambrado. Alguém que não estava lá quando havia chegado. Mais um visitante incauto que iria perder a viagem! Achou por bem se aproximar e avisá-lo á respeito do fechamento do campo naquele dia. Era um homem de altura mediana, usava um pequeno chapéu de feltro preto, sobretudo de lona cinza e um cachecol preto, que encobria todo o seu rosto, deixando apenas os olhos á mostra. -Olá!-disse o senhor gordo, sem obter resposta – -O amigo deve ter vindo para visitar o campo também, não? O outro homem continuava imóvel, olhar fixo na direção do campo. -Bem, sinto informá-lo, mas, hoje eles fecharam... esta vindo uma tempestade forte,sabe? Sem resposta, sem atenção. -Bem... meu nome é Izaia Juzerman – disse estendendo a mão direita- O outro homem olha para a mão estendida, ergue um olhar severo, sem retribuir ao cumprimento. -Ah... você deve estar com bastante frio nas mãos...eu não o condeno,este inverno esta sendo um dos mais rigorosos! O senhor gordo mete a mão dentro do casaco, retira de lá uma pequena garrafa de bolso e a destampa. -É vodka, aceita?Eu sempre trago um pouco comigo... ajuda a espantar o frio,sabe? O outro homem movimenta a cabeça de forma negativa. -Esta bem – diz o gordo, tirando uma golada de vodka e guardando novamente a garrafinha – -Veio prestar homenagem a algum amigo ou parente, ou apenas por curiosidade? -Sabe... meu pai morreu ai...e minha mãe,só sobreviveu por que sabia tocar violino...os nazistas a colocaram na orquestra do campo. O homem continuava a olhar para frente. Eu sobrevivi graças a minha mãe. Quando os nazistas entraram em Varsóvia,ela me colocou em um buraco no assoalho da sala,fui encontrá-la novamente,dois anos após o final da guerra! Nada!Sem resposta, sem atenção. -Ali dentro – continuou o senhor gordo –existem salas com despojos dos prisioneiros! -Há salas repletas de sapatos, outra com pares de óculos, roupas, e malas. Se você olhar a sala das malas, verá a mala que pertenceu ao meu pai... esta escrito “P.Juzerman”...P de Petras... Nenhuma resposta. -Já sei, já sei – disse o gordo agitando o indicador no ar – eu sei quem é você! O outro homem volta um olhar de pouco interesse. -Você foi um prisioneiro daí também... e não fala por que os nazistas arrancaram a sua língua em uma daquelas experiências macabras que eles faziam,não é? Resposta negativa com a cabeça. -Os alemães eram uns malditos!Hitler então era um covarde!Sabe, tem gente que acredita que ele não esta morto! -Dizem que os corpos achados não eram dele e Eva Braun! O outro homem volta um olhar severo. -E sabe o que eu ouvi também?Ouvi que Eva Braun era um homem vestido de mulher! -Veja só!E Hitler perseguia os homossexuais!Não que eu tenha algo a favor, mas, você entende... O vento soprou mais forte, flocos de neve começavam a rodopiar ao redor dos homens. -É... a tempestade se aproxima...não há o por que ficar perdendo tempo aqui...adeus! Disse o homem gordo, estendendo a mão direita novamente, e, mais uma vez, ficando com a mesma no ar, sem resposta. Meio constrangido, ele diz; -Você deve estar com muito frio nas mãos mesmo!Bem, de qualquer forma, foi um prazer conhecê-lo! Disse isso retirando novamente a pequena garrafa do bolso do casaco, virou-se e começou a andar na direção do estacionamento, jogando a cabeça para traz e tirando uma golada da bebida. O outro homem ficou ali, observando enquanto o senhor gordo se afastava. Ele levou a mão direita lentamente á altura do rosto, com o dedo indicador á guisa de gancho, puxou o cachecol, deixando o rosto totalmente á mostra. Não se via agora um olhar severo, mas sim, um olhar cheio de ódio, em um rosto enrugado, castigado pelo tempo e um pequeno bigode quadrado, repleto de fios grisalhos
FIM.

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