A violação de túmulos é algo que existe desde que o mundo é mundo .
As pessoas tem o costume de mandar bens materiais com os mortos e os ladrões de túmulos tem a sagrada missão de livra-los desse fardo .
Mas nem sempre a coisa acaba bem...
" O homem alto e magro passou entre as pessoas que estavam no velório
Ele levava o chapéu de feltro marrom junto ao peito,o havia tirado em sinal de respeito .
Ao passar pelas pessoas ele balbuciava algo que as elas entendiam como um cumprimento e mesmo sem entender respondiam .
Como sempre,grupos de pessoas aqui e ali conversando em voz baixa .
O primeiro objetivo do " trabalho " era chegar perto do caixão .
Ao chegar ali o homem alto expressava seus pesares com quem estivesse próximo ao esquife,mas na verdade seus olhos mantinham-se atentos ao defunto .
Homens tinham pouco a oferecer,normalmente um ou dois anéis de ouro ,as vezes com uma pedra preciosa .
Poderia haver uma corrente de ouro com um crucifixo incrustado de pedras,uma correntinha de ouro saindo de um bolso poderia indicar a presença ali de um bom relógio,enfim.
Já as mulheres eram mais generosas !
Colares de pérolas,de ouro,brincos e anéis de diamantes,broches e toda uma infinidade de jóias !
Joel ( o homem magro ) observava tudo isso .
Se houvesse mais de um velório no local,ele os visitava .
Segunda fase do trabalho,identificar alguém no velório como referência,um homem ou mulher com um chapéu ou roupa diferente,isso o ajudaria depois a marcar os locais dos enterros por "prioridade" .
Após visitar os velórios ele definia as prioridades para o trabalho .
Os defuntos que ofereciam mais seriam visitados primeiro,os mais pobres,depois .
Joel não deixava passar nem uma simples aliança !
Naquele dia era apenas um defunto,um homem .
Ele acompanhou o cortejo .Como já conhecia aquele cemitério não se preocupou em ver detalhes como altura de muro,postes com luz ou vigilantes .
Joel era cuidadoso,era um profissional .
Ele havia aprendido o " ofício" com um marroquino ,em meados dos anos 30 .
O gato de pelo rajado andava tranquilo entre os túmulos .Ele parou por um instante olhando para cima e em seguida deu um salto para se livrar de ser atingido pela sacola de lona que caia no chão .
Atras da sacola veio Joel,pulando o muro do cemitério .
Agora ele não usava o seu terno alinhado ou o chapéu de feltro,mas usava uma roupa surrada e uma touca de lã preta na cabeça .
Ele pegou a sacola de lona e como o gato, foi andando com passos silenciosos entre os túmulos .
O objetivo agora era localizar o vigilante do cemitério .
Ele se abaixou atras de uma lápide e esperou ate ver o clarão do lampião a querosene que era levado pelo homem .
O vigilante passou e seguiu em direção a entrada do cemitério .
Joel sabia que a ronda daquela hora havia acabado e que ele só voltaria dali duas ou três horas ! Tempo suficiente para ele " trabalhar" .
Ele tomou como referência o cruzeiro do cemitério e chegou ate o local do enterro da tarde .
Não era uma cova,era um túmulo .
Ele abriu a portinhola de ferro fundido,acendeu um pequeno lampião e se meteu para dentro .
Como havia acompanhado o enterro ele sabia que o caixão estava em uma gaveta lateral na parte do meio do túmulo .
Ele gostava dessas gavetas do meio,pois eram mais " confortáveis para trabalhar" .
As de baixo o obrigavam a ficar de joelhos junto as baratas e outros bichos que infestavam os túmulos,e as primeiras de cima o submetiam a um esforço descomunal com as pernas para se manter no alto .
Cheiro de cimento fresco,hora de abrir a sacola de lona .
Joel sabia como abrir uma parede de tijolos recém construída .
Ele sabia tirar os tijolos nos lugares certos,colocava-os com calma no chão .
Em seguida abria o caixão e colocava o lampião no espaço ao lado desse.
- Muito bem amigo - começava Joel - Agora somos só nós dois !
Tudo o que ele havia visto durante o velório,anéis,correntes,tudo ele pegava .
Mas havia algo que não era possível ver durante o velório .
Joel trazia consigo uma haste de arame.Ele a colocava sob os lábios do defunto e com a ajuda do lampião rastreava dentes de ouro .
- Vamos ver como estão esses dentes??? Quantas vezes o seu dentista lhe disse isso ??
- Ora vejam...o que temos aqui???Primeiro,segundo e terceiro molares !
- Muito bem meu amigo !
Joel vai ate a sacola de lona e volta com um alicate .
- Não vai mais precisar deles meu amigo...aliás...para onde vai você deve estar desprovido de bens materiais para ser aceito,portanto,estou te fazendo um favor !
Joel arrancou os três dentes do defunto,após isso ele vasculhou novamente cada bolso da vestimenta .
Ele aprendeu isso com a prática !
Uma vez ele encontrou um maço com cem contos de reis no bolso de um paletó ,e outra vez,encontrou uma pepita de ouro entre os seios de uma defunta !
Dali por diante,ele sempre metia a mão em todos os lugares onde se pode-se esconder algo em um defunto !
Os tijolos foram recolocados no lugar,a tampa de ferro fundido novamente fechada !
Só iriam descobrir o roubo quando feita a exumação !
As jóias e o ouro tirado dos mortos davam a Joel uma vida de relativo conforto !
Ele vivia em bons hotéis,usava ternos com risca de giz,camisas inglesas,sapatos italianos sempre muito bem engraxados e lustrosos e os chapéus de feltro com dobra americana !
Quando alguém perguntava sua profissão ele respondia :
- " Eu comercializo ouro e jóias ."
Ele não estava mentindo...já faziam quase cinco anos que ele " trabalhava" naquilo...
Naquela manhã de primavera ele havia saído do hotel após o café .
Passou pela esquina perto da igreja e pegou o jornal do dia com o moleque .
Foi ate a praça,sentou-se em um banco de uma forma confortável e começou a ler .
Joel não lia as notícias do dia .Não dava atenção a política,esporte ou aos conflitos que começavam na Europa .
Ele se focava nos obituários !
Ele lia cada um deles e escolhia os anúncios de maior tamanho .
Quanto maior o anúncio,mais posses tinha o defunto !
Ele corria calmamente os olhos pela página ,quando de repente ele viu algo que o fez mudar de posição no banco !
De relaxado ele jogou o corpo para frente e franziu o semblante em um anúncio que tomava quase meia página !
O anúncio começava :
" NOTA DE FALECIMENTO :
É COM PESAR QUE A FAMÍLIA ARRUDA CAMPOS DE SOUZA VEM POR MEIO DESTE COMUNICAR..."
Joel leu o anúncio ate o final,sem acreditar o que tinha a sua frente !
" Família Arruda Campos de Souza "! Uma das famílias mais ricas da cidade vizinha !
A matriarca havia falecido !
Família rica igual a defunto rico !!
Joel dobrou o jornal de forma a poder segura-lo com mais firmeza e voltou a ler o anúncio ! Ele o leu novamente,letra por letra !
Ele voltou a se encostar no banco .Ele olhava fixo para frente com um sorriso no rosto,como se estivesse vendo pedras preciosas flutuando no ar.
Joel se levantou e começou a andar,ao passar por um mendigo ele lhe entregou o jornal dizendo :
" - Tome...use como cobertor..."
O mendigo segurou o jornal sem entender nada enquanto Joel se afastava .
Ele voltaria para o hotel para pegar a sacola de lona e em seguida iria para a estação de trem .
Joel voltou para o hotel .
Ele pegou a sacola de lona e a jogou sobre a cama .
Foi ate o guarda roupas e tirou de la uma mala grande e colocou sobre a cama ao lado da sacola .
Ele abriu a mala,cruzou os braços e pensou por alguns segundos .
- Defunta rica igual cemitério de rico.
- Cemitério de rico ,igual mausoléu ...mausoléu ,igual a corrente,tranca,cadeado,ferrolho...
Ele então pegou uma serra se arco,um pequeno pé de cabra,mais um alicate de corte .
Por precaução ele colocou um pedaço de corda na sacola também.Poderia precisar para entrar no cemitério .
Dessa vez ele não iria usar o lampião a querosene mas sim uma lanterna
- A dona rica merece tudo do bom e do melhor ! - disse ele sorrindo -
Conferiu o restante do material,fechou a sacola de lona e voltou a guardar a mala no guarda roupas .
Ele tomou um banho,vestiu um terno italiano marrom escuro .
Com esse combinou sapato,camisa e chapéu .
Olhou para o relógio sobre a comoda ,já passavam de dez da manhã .
Teria que correr,pois o trem passava pela cidade as onze e trinta .
Mais tarde ele via o reflexo do seu rosto no vidro da janela do vagão se sobrepondo a paisagem rural do lado de fora .
Campinas verdes e extensas que se perdiam no horizonte .
Aqui e ali uma vaca pastando,um homem usando um arado puxado por um boi,uma casinha branca com janelas azuis perdida na imensidão do campo.
Tudo isso se misturava ao tilintar das rodas do trem,o sacolejo dos vagões o barulho da locomotiva .
Chegando a cidade vizinha ele se hospedou em um hotel simples .
Ele só precisava de um lugar para deixar a sacola de lona .
Não era preciso perguntar onde estava sendo o velório da ricaça .A presença de fotógrafos na porta da igreja matriz indicava o local.
Muita gente próxima a igreja . Os carros a motor se misturavam as ainda resistentes carruagens .
Joel foi se aproximando,ele sabia que para entrar teria que manter a postura,fazer pinta de importante .
Foi pedindo licença e entrando .
Ele se deparou com uma enorme fila,era a fila das condolências .
Tratou de tirar imediatamente o chapéu e segura-lo contra o peito.
A fila andava devagar.Dois homens conversavam a sua frente,alguém que chegara atras dele falava em outro idioma .
Ele começou a prestar atenção em tudo,nas pessoas ,nos pés de conversa.Cada informação era importante .
Mais a frente um grupo de pessoas recebia os pesares ,deveriam ser os filhos da defunta .
Quando já estava bem próximo do grupo Joel ouviu a seguinte frase:
- Represento o grupo tal,meus sentimentos...
- Represento a família tal,meus pêsames ...
Ele logo começou a pensar ! Teria que representar alguém ou alguma coisa !
Ele tinha que ser importante !
- Pensa Joel,pensa !!! - pensou consigo mesmo -
Faltavam apenas os homens a sua frente !
Quando chegou sua vez não lhe ocorreu mais nada senão estender a mão ao homem grisalho de preto e dizer com voz firme :
- " Eu represento a Ford do Brasil,meus sentimentos !"
O homem de preto que segurava sua mão o fitou por alguns segundos e respondeu .
- Obrigado...obrigado pela presença .
Pouco a pouco a fila andava e se aproximava do caixão que se encontrava próximo ao altar da igreja .
De onde estava Joel pode ver o grande crucifixo dourado com raios de sol mais dourados ainda saindo de traz do Cristo .
Os castiçais candelabros também eram dourados,mas aquilo tudo pertencia a igreja e roubar igreja dava azar !
Os bancos estavam repletos de pessoas,assim como as laterais .
Alguém tocava algo no órgão em um tom que não se sobrepunha ao burburinho local .
Enfim Joel começava a ver o caixão .Ele estava sobre uma plataforma,as pessoas tinham que subir dois degraus para passar ao lado da defunta e dar o seu adeus .
Dali ele pode ver que se tratava de um caixão de carvalho escuro laqueado .
Deveria ser pesado pois haviam quatro hastes de um lado e mais quatro do outro. Normalmente eram apenas três .
As hastes eram de ouro,Joel sabia quando algo era de ouro ou apenas banhado !
Haviam também cantoneiras de ouro nos quatro cantos do caixão e o modelo do caixão era europeu pois as tampas eram fixas,divididas em duas partes e estavam ambas abertas .
Ele ainda não conseguia ver a defunta .
O seu coração batia rápido,ansioso pelo que o esperava .
Ele subiu o primeiro degrau,o segundo. Viu os pés e a mortalha negra .
Assim que deu mais um passo ele pode contemplar o corpo todo da defunta .
Como que por coincidência nesse momento o som do órgão mudou para um tom como que se anuncia-se as portas do paraíso !
Joel estava maravilhado com o que via !
A defunta usava um colar de pérolas de oito voltas. Na ponta desse colar havia um crucifixo de ouro cravejado de brilhantes .
Seus pulsos levavam braceletes de ouro branco e diamantes .
Cada um dos dedos das mãos tinha um anel de ouro com diferentes pedras preciosas .O anular da mão esquerda levava dois,um com certeza do falecido marido .
Enrolado nas mãos,um terço com contas douradas e crucifixo de ouro .
Ali estava o sonho de todo ladrão de cemitério !
Ela seria o seu passaporte para o mundo dos ricos !
Finalmente ele poderia realizar o seu sonho : viajar para a América do Norte e depois,caso os rumores de conflito armado na Europa terminassem,ele iria para Paris na França !
O dourado do ouro contrastava com o preto e roxo da mortalha,uma mortalha que lembrava o vestido de uma espanhola .
Joel estava em êxtase !Estava fora de si !
Nisso ele começou a ouvir algo e alguém cutucou o seu braço .
" - Com licença...com licença..." - sussurrava o senhor que vinha logo atras .
Joel voltou a si .
- Desculpe...desculpe ...- disse ele se afastando e evitando os olhares de censura dos demais na fila .
Ele foi ate um confessionário,encostou-se nele,tirou o lenço do bolso e enxugou o suor da testa .
De onde estava ele podia ver a parte de traz das tampas do caixão...mais uma surpresa !Um crucifixo de ouro grudado na tampa !
" - Abençoado pé de cabra..." - pensou ele -
Joel se recompôs . Ele tinha que iniciar a segunda fase do trabalho .
Recolher mais informações .
Ele pegou um pé de conversa que iria deixa-lo ainda mais entusiasmado !
Foi com uma dupla que conversava as escondidas atras de um pilar .
Ao que parecia,um deles era sobrinho da defunta .
Ele falava algo sobre a herança e reclamava com o outro,ate que soltou a frase :
" - Todas as jóias dela estão dentro do caixão !"
- Tem certeza ? - perguntou o outro -
- Sim ! Foi a própria governanta que me contou...ela ajudou os homens da funerária a esconder as jóias !
- Como pode ter certeza da informação ?- perguntou o outro -
- Bem...você sabe que a governanta é solteirona..dai,eu faço alguns favores noturnos para ela...em troca ela me mantém informado de tudo.
- Todas as jóias estão lá ? - perguntou novamente o outro -
- Todas ! - afirmou o jovem - O caixão esta um peso só !
- Titia era uma avarenta...a família toda a odiava...ela era suspeita de ter matado meu tio envenenado...ela insistia em comprar indultos,mesmo com essa prática abolida pela igreja !
- Toda vez que ela fazia uma doação para a igreja ela obrigava o padre a fazer um contrato dando a ela a certeza de que entraria no céu depois de morta.
- Que absurdo ! - disse o outro - Quem lhe contou isso ?
- Foi o próprio padre . - respondeu o rapaz -
- Você também faz favores noturnos para o padre? - perguntou o outro -
Os dois riram baixinho...
Ao ouvir isso Joel pensou por um instante :
" Quem era pior ? Ele,um ladrão de cemitério que tirava bens de mortos que não conhecia ou os parentes dos defuntos que ficavam tramando ás escondidas ?"
Ele andou mais um pouco entre os presentes .
Pode ouvir algo sobre a defunta.
A mulher tinha a fama de ser insaciável no sexo,que era uma depravada,que pagava muito bem por noites picantes com jovens homens
Joel resolveu sair para comer alguma coisa .
O enterro seria apenas as dezessete horas e depois a noite seria longa.
As tampas do caixão foram fechadas ,já passavam das 16:00 horas e muitas pessoas haviam se retirado da igreja e começado a caminhada ate o cemitério que ficava a uns quinhentos metros .
Realmente o caixão estava pesado !
Oito homens o carregaram com sacrifício ate o carro funerário puxado a cavalos .
A distância ate o cemitério era tão pouca que o cortejo já chegava aos portões do campo santo e ainda haviam pessoas perto da igreja .
Joel prestava atenção em tudo,em cada detalhe,em cada conversa.
Foi num pé de conversa desses que ele descobriu que a defunta tinha um título : Baronesa,e que o falecido marido era um Barão do café .
Mais uma vez ele ouviu algo sobre a escandalosa conduta sexual da defunta .
Mas isso não era problema dele .
Ele voltava a atenção agora para os detalhes do cemitério,altura do muro,postes de luz,distancia de um túmulo ao outro .
Falando em túmulos,Joel estava maravilhado com a qualidade dos túmulos do local !
Na verdade,o cemitério tinha mais mausoléus ricamente decorados do que túmulos !
Verdadeiras obras de arte repletas de estatuas e bustos ! Muito mármore,muito latão polido e com certeza,muito ouro e jóias em seu interior !
Ele já fazia planos de voltar aquela cidade quando retorna-se de viagem .
Chegaram ao mausoléu da família ARRUDA CAMPOS DE SOUZA .
Parecia maior que os demais,uns cinco ou oito metros de altura,mármore negro e granito .
Janelas em arco e porta principal com vitrais coloridos que continham pinturas com temas bíblicos .
No alto,uma cúpula prateada,ao redor dela,quatro enormes anjos de pedra tocavam trombetas aos quatro cantos !
Após a porta principal havia uma ante sala com um altar,prateleiras de pedra nas paredes com castiçais e uma escada que levava ao subterrâneo onde havia um ossário .
Havia uma segunda porta de madeira escura entalhada e um grande ferrolho dourado .
Essas portas foram abertas deixando ver uma segunda câmara,onde havia mais um altar e duas mesas de granito .
Sobre uma delas já havia um caixão,de cor marrom claro,empoeirado .
Era o caixão do falecido Barão do café .
Mais uma vez os oito homens fizeram seu esforço para carregar o caixão da defunta ate a mesa de granito .
Eles o colocaram ali e saíram .
Joel foi paciente,ele ficou ali ouvindo discursos hipócritas por quase uma hora .
Ao final,um senhor com chapéu de palha,o zelador do cemitério por certo,trancou a porta da segunda câmara ajeitando as coroas de flores em frente a mesma.
Em seguida,após todos saírem,ele também trancou a primeira porta passando uma grossa corrente entre dois elos de latão polido e unindo as pontas com um grande cadeado .
Joel marcou bem a posição do mausoléu . Ele observou uma parte onde o muro era mais baixo,tomou como referência uma árvore torta cujo galho saia para a rua .
Ao sair do cemitério ele andou pela calçada ate avistar o tal galho.
Ali seria a sua entrada !
Ele voltou para o hotel,tomou um banho e jantou .
Esperou ate as 21:00 horas,vestiu a " roupa de trabalho ",pegou a sacola de lona e foi para a escada que dava para o saguão .
Ele aguardou no alto da escada o melhor momento para sair,não queria que o dono do hotel o visse vestido daquele jeito .
Surgiu a oportunidade e ele se foi .
Já eram quase 22:00 horas,ele andava pela rua .
Pouca gente por ali...cidade do interior,todos dormiam cedo ,ele praticamente estava sozinho na rua .
Ele chegou onde o galho da árvore saia .
O muro tinha uns dois metros de altura,não mais que isso .
Joel olhou ao redor para ver se via alguém,em seguida,deu impulso e se agarrou no alto do muro .
Ele suspendeu o corpo e olhou dentro do cemitério...não queria ter surpresas com vigia .
Tudo limpo ! Ele joga a sacola de lona,em seguida escala o muro e pula dentro do cemitério .
Os únicos postes de luz que haviam la tinham lâmpadas fracas com uma luz amarelada e ficavam na alameda principal .
O restante do cemitério era uma escuridão só !
O vulto dos túmulos e mausoléus na escuridão formavam imagens sinistras .
Joel agora precisava localizar o vigia .Ele se esgueirou entre os túmulos ate próximo a capela do cemitério,se abaixou e aguardou .
Passado alguns minutos ele pode ver uma claridade entre os túmulos no meio do cemitério .
Era um foco de lanterna que se movia desordenadamente na escuridão .
Em seguida surgiu um outro foco,vindo da lateral esquerda .
As luzes se encontraram e começaram a se aproximar da alameda principal.
Aquele cemitério possuía dois vigias .
Ele agora podia ouvir a voz dos dois homens.Eles passaram pela capela e entraram na alameda principal .
Joel não entendia o que falavam . Eles passaram direto e se afastaram .
De onde estava ate a casinha dos vigias Joel calculou uma distância de 400 metros .
Imediatamente ele começou a andar .
Usou a capela como ponto de referência .Ele passaria em frente a ela,contaria quatro travessas e entraria a direita .
Depois era seguir ate a metade da travessa .
O mausoléu enorme,a cúpula,os quatro anjos ! Não havia como errar !
Algumas coroas de flores do lado de fora ajudaram na identificação .
Joel tirou do bolso do casaco duas pequenas hastes de metal.Ele agora iria abrir o cadeado .
Não podia usar a lanterna,então usou a prática !
Fez as mãos em concha amparando o cadeado e segurando as hastes com o polegar e o indicador de cada mão,trabalhou na tranca .
Um " click" anunciava a abertura .
Ele tirou a corrente e o cadeado,abriu a porta com vitral e entrou .
Ele depositou o cadeado e a corrente sobre uma das bases de pedra na lateral da primeira sala .
Foi em seguida para a segunda porta,afastou as coroas de flores e trabalhou na fechadura do ferrolho . Mais um " click" e estava feito .
Joel entrou,ele tirou a lanterna do bolso do casaco e a acendeu .
Não perdeu tempo olhando nada !Colocou-se ao lado do caixão preto,tirou o pé de cabra da sacola e investiu no crucifixo da tampa .
Ele fez um esforço descomunal e com um rangido a peça se soltou .
Joel o segurou nas mãos. O crucifixo deveria pesar uns quatro quilos .
- Você vai pagar a minha viagem e estadia na América ! - disse ele -
Foi dai que ele começou a sentir aquele cheiro .
Um cheiro ocre...podre...
Joel conhecia o cheiro da morte,ele olhou ao redor,cheirou a manga do casaco .
Não ! Não era da sua roupa de trabalho ! Ele mesmo a lavava sempre que retornava para casa !
Do caixão do Barão também não poderia ser,ali só existia um esqueleto !
E do caixão da Baronesa...impossível !
Ela poderia estar cheirando mal,mas não daquele jeito !
O fedor aumentava .
Joel então abriu a tampa do caixão preto,primeiro a da cabeça,depois a dos pés .
Ele contemplou o corpo da Baronesa .
- Muito bem Baronesa...agora somos apenas eu e a senhora..."
Ele retirou o tule preto que cobria o corpo e o jogou de lado .
Em seguida, desenrolou o terço de ouro que segurava as mãos da defunta .
O cheiro aumentava . Joel aspirava com mais força,tentando encher os pulmões com ar .
Que raio de fedor era aquele ??
Em seguida ele tentou tirar os anéis dos dedos,mas eles não saiam .
Com certeza era o " rigor mortis ".
Foi ate a sacola de lona e pegou o alicate de corte .
- Não vai doer Baronesa,eu prometo...
Ele forçou o alicate para cortar o primeiro dedo,mas não conseguiu !
Ele forçou a ferramenta com as duas mãos,colocou toda a sua força,e nada !
Que diabos ???Ele mantinha aquilo sempre bem amolado !!
Tentou o dedo mindinho e dessa vez colocou tanta força que o pino que unia as partes do alicate se rompeu !
- Mas que porcaria é essa ???- esbravejou ele -
O fedor agora era maior !Joel se afasta do caixão e abana o ar com as mãos,na esperança de conseguir respirar melhor .
- Esta sendo durona??Pois muito bem !
Ele disse isso e pegou na sacola de lona a serra se arco .
- Vamos la Baronesa...não tiro os dedos,levo as mãos !
Joel começa a serrar vigorosamente o pulso da defunta .
Ele não consegue respirar,o fedor pútrido lhe causa náusea .
Joel não suporta,ele se joga de lado no chão e vomita .
O ambiente dentro do mausoléu esta quente,abafado !
O odor podre se mistura ao cheiro de vômito,Joel continua de quatro vomitando e tossindo .
Não há mais o que por para fora,mas as contrações do estômago continuam e ele sente o amargo da bile na garganta .
Ele esta exausto e uma forte dor de cabeça agora piora a situação !
Ele respira fundo,não há ar,apenas o fedor podre !
Pensou em sair para tomar um pouco de ar,mas não podia fazer isso,era arriscado demais !
Com dificuldade ele se apoiou na beirada da mesa de granito colocando-se de pé !
A única forma de não armazenar aquele ar podre nos pulmões era aspirar rapidamente e soltar pela boca .
Ele tomou uma decisão. Já tinha o crucifixo,ele iria então pegar o colar de pérolas e ir embora dali !
Estava de bom tamanho !
A lanterna estava sobre o corpo da defunta .
Joel a pegou e iluminou o colar .
Nisso ele pode notar algo estranho !
A feição da defunta estava diferente do que era a tarde antes do sepultamento .
O rosto dela antes era o de uma senhora,um rosto normal.
Agora, a pele do rosto estava escura, os ossos da face estavam saltados,os lábios estavam entreabertos deixando os dentes á mostra e sua testa estava franzida em uma expressão de maldade .
Ele não quis pensar naquilo,levou as mãos ao colar e o puxou .
O colar não arrebentou,ele puxou com mais força ! Nada!
Joel faria um último esforço !
Ele encheu os pulmões com o ar podre e quando se preparava para puxar o colar fora surpreendido por uma das mãos da defunta que agarrava seu pescoço .
A mão apertava forte o pescoço de Joel,ele tentava se soltar desesperadamente !
A falta de ar o estrangulamento não o permitiam gritar .
A defunta foi lentamente se sentando no caixão !
Joel estava em pânico .
A boca da defunta foi se abrindo,mais e mais ! Algo fora do normal que deixava aquele rosto macabro mais horrível ainda .
Joel lutava para se soltar.
A defunta o puxa e quase cobre todo o rosto de Joel com a boca !
Ele sente algo entrar em sua boca,algo que tocava sua garganta !
Um beijo satânico e podre invadindo sua boca !
Com uma força descomunal a defunta levanta Joel pelo pescoço e o traz para dentro do caixão .
Ele se debate ,não consegue se livrar daquele " beijo " .
A defunta se deita novamente e as duas tampas do caixão se fecham com um estrondo !
O dia começava a amanhecer quando o senhor com chapéu de palha fazia a última ronda .
Quando passou pelo mausoléu dos ARRUDA CAMPOS DE SOUZA notou a falta do cadeado .
- Mas o que é isso ?- disse ele - A mulher mal esfriou no caixão e já vieram aqui para roubar !
Ele tirou da cintura uma pequena garrucha 22 de dois canos,lembrança da revolução de 32 .
Foi ate a porta com vitral e disse :
- Aqui é o vigia...eu estou armado...quem estiver ai,saia agora !
Silêncio.
O homem volta a repetir :
- Sou o vigia e estou armado...se precisar,vou atirar...saia !
Nada !
Ele então empurra a porta com a ponta do pé e entra com cuidado .
Olha rapidamente atras da porta ,nada !
Ele vê o cadeado e a corrente sobre a base de pedra . Ele tinha certeza de que havia passado o cadeado na porta na tarde anterior .
Foi olhar então a segunda porta .
Ele afastou as coroas de flores,forçou a porta...estava trancada !
Vendo que tudo estava em ordem ele baixa a arma .
Estranho ! Por que alguém abriria o mausoléu e não iria ate os caixões ??
Sera que ele havia se enganado e deixado de colocar a corrente e o cadeado ???
O vigia coça a cabeça confuso .
Voltou a olhar a porta,tudo normal .
Deu com os ombros,pegou a corrente e o cadeado,voltou a coloca-los nas argolas de latão,fechou tudo e se foi .
Onde estava ele podia ouvir o canto dos pássaros da manhã e o barulho das folhas arrastadas pelo vento na alameda principal .
Ele só não podia ouvir algo que vinha de dentro do mausoléu,que vinha de traz da segunda porta !
Urros de pavor e pancadas abafadas pelas pesadas tampas do caixão de carvalho escuro !
FIM


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