domingo, 31 de março de 2019

" A casa da rua Sergipe "

" Esse é um conto de ficção,qualquer semelhança com nomes ou fatos sera mera coincidência " .
" As mãos de Luna revolveram a farinha de trigo junto com os ovos . Já eram quase oito da manhã e ela tinha que preparar a " pasta"(macarrão) para que o almoço ficasse pronto no horário certo . Seu marido Enrico chegava para almoçar ao meio dia e não tolerava atrasos . A pouca idade de Luna não a impedia de ser uma dona de casa ,esposa e mãe dedicada . Seus vinte anos não suportavam a pressão do dia a dia de dona do lar ,dando a ela um aspecto de cansaço . Havia se casado com Enrico aos dezessete anos ainda na Itália. A pequena cidade de Scandicci perto de Florença não prometia um futuro muito promissor,por isso Enrico decidira arriscar a sorte na terra nova da América do sul . Com um ano de casados eles partiram para o Brasil . Tudo poderia ser bem melhor se ele não tivesse levado a mãe junto . " Dona Jacalina " era uma idosa de sessenta e poucos anos,viúva a trinta quando perdera o marido na guerra que uniria a Itália a Prússia. A convivência com a sogra não era das melhores . Luna percebia o ciúme doentio que Dona Jacalina tinha pelo filho. A velha não colaborou nem quando Luna engravidou de Bianca,a filha do casal . A menina tinha poucos meses de vida e sofria de algum problema que a fazia ter constantes ataques de choro . Os afazeres do lar,o marido machista e sistemático unidos ao choro da criança e a irritante voz de Dona Jacalina faziam da vida de Luna um verdadeiro calvário na terra ! Seu único consolo era o rádio de cabeceira,um verdadeiro luxo do qual Enrico não abriu mão de comprar assim que chegaram ao Brasil . Luna cortou a massa em tiras,dependurou-a em um cabo de vassoura e levou para o quintal para secar , O passo seguinte seria cortar os tomates para preparar o molho,mas antes ela passou pelo seu quarto para olhar Bianca . Graças aos céus a menina dormia . Ao voltar para a cozinha ela depara com Dona Jacalina em pé ao lado da mesa . Ela retira os tomates da sacola de pano e os vai atirando ao chão. - " Che cosa stai facendo?" ( O que esta fazendo ?) - pergunta Luna incrédula - - " I pomodori sono marci!"( Os tomates estão podres!)- responde a velha - - " Non gettare i pomodori a terra!" ( Não jogue os tomates no chão!) - grita Luna - Luna se abaixa e começa a recolher os tomates . Dona Jacalina começa a gritar e a ofender Luna . Bianca acorda e começa a chorar . Enrico atravessou a a Avenida da Consolação com o seu passo apressado . O trajeto da peixaria onde trabalhava na rua Major Quedinho ate a rua Sergipe era de cinco quadras . A dois anos que ele fazia o mesmo caminho. Enrico se considerava com sorte .Mal chegara no Brasil e já havia conseguido trabalho na peixaria . Ele teria se apaixonado por São Paulo e pelo povo paulistano . Achava as pessoas amistosas e acolhedoras . Ele se apaixonou também pelo clima tropical . O calor do pais o havia feito adotar um visual um tanto extravagante . Camiseta regata branca,suspensórios,calça de tergal cinza e um par de tamancos de madeira cujo barulho das passadas na calçada anunciavam sua chegada de longe . Sob o braço ele trazia um embrulho em jornal recheado com um bom pescado . Enrico era duro em casa com a mulher,mas era simpático com a vizinhança que o cumprimentava assim que ele passava pela rua. - Bom dia Enrico . - diziam - - " Buongiorno " . ( Bom dia ) - respondia ele - Para Luna a aproximação do meio dia era o pressagio de mais uma briga em família . Como sempre,a maldita sogra faria de tudo para colocar Enrico contra ela . O almoço daquela terça feira não fora diferente . Dona Jacalina dizia que o molho do macarrão estava com gosto ruim por que Luna teria usado tomates podres no preparo . Ao se defender ,Luna provocava a ira do marido que vinha em defesa da mãe . Era sempre assim . A noite não era diferente e no final,ela tinha que se deitar e deixar Enrico satisfazer seus desejos . Não basta-se isso,Luna era acometida de uma constante dor de cabeça . As vezes era fraca,outras vezes fazia parecer que sua cabeça iria estourar . Foi durante uma dessas dores de cabeça que tudo aconteceu. Havia chegado o inverno e São Paulo fechava seu semblante com o seu clima úmido e frio . Já faziam três dias que a cabeça de Luna não parava de doer . Uma vizinha havia lhe dado um remédio amargo mas não havia adiantado . Uma dor pulsante do lado direito de sua cabeça fazia sua visão ficar turva e o estômago enjoado ,resultado do que a medicina moderna chamaria hoje de " tumor em evolução " . Luna olhou para fora pela janela da cozinha. Céu cinza,frio,gotas de água pingavam do beiral do telhado. Ela havia deixado o volume do rádio bem baixo,apenas para lhe fazer companhia . Com o rolo de madeira ela esticava a massa do macarrão sobre a mesa . Jogava um pouco de farinha de trigo e voltava a abrir a massa. Ela se escorou por um instante no tampo da mesa,rezando para a dor pelo menos diminuir . Nisso,Dona Jacalina entra na cozinha . Ela começa a discutir com Luna por um motivo fútil . Bianca começa a chorar no quarto . O choro da criança é estridente . A voz de Jacalina é odiosa ! A velha se aproxima de Luna,ela quase fala dentro do seu ouvido! A dor pulsa,pulsa,pulsa ! O choro aumenta . Jacalina discute,xinga,critica. A dor pulsa,pulsa,pulsa ! Dor,choro,provocação,dor,choro,provocação ! Dor,dor,dor... Luna sente como que entrando em um transe ! Ela aperta com força o rolo de madeira em sua mão . De súbito ela solta um grunhido e desfere um violento golpe na cabeça de Dona Jacalina . A velha solta um grito e cambaleia para traz ! Sangue escorre pela sua testa ! Luna ergue o rolo de madeira e solta um novo golpe ! Jacalina tenta se afastar protegendo a cabeça com as mãos ! Luna tem um olhar de ódio ! Com gestos mecânicos ela começa a desferir golpes e mais golpes na cabeça de Jacalina ! A velha encosta-se na parede da cozinha e começa a escorregar lentamente ate cair sentada sem sentidos no chão de cimento queimado . O sangue escorre dos ferimentos na cabeça de Jacalina . Ele escorre pelo braço começando a fazer uma poça no chão ao redor do corpo . Dor,dor,dor... A criança chora ! Luna solta o rolo de madeira,ele cai ao chão e rola para de baixo da mesa . Luna se dirige ao quarto. A dor pulsa,pulsa,pulsa... Luna vai ate sua cama e pega um travesseiro .Em seguida ela vai ate o berço onde Bianca chora . Seu olhar é apático . A dor pulsa,pulsa,pulsa... Luna segura o travesseiro com as duas mãos em frente ao corpo.Ela esta sobre o berço . O choro de Bianca é abafado... Luna vai ate o quintal.Ali ela encontra um pedaço de corda que Enrico trouxera da rua . Ela volta para o quarto,para na porta e olha para cima,para o caibro de sustentação do telhado . O banquinho de madeira que fazia as vezes de criado-mudo seria agora o seu último palco...
Enrico subia a rua da Consolação . Ao contrário da usual camiseta regata branca agora ele usava uma camisa de algodão e um paletó escuro . O vento frio que descia a rua era cortante ,por isso ele andava com os braços cruzados . Enrico estava acostumado ao frio da Itália,mas os últimos anos vivendo em um clima tropical o haviam feito perder um pouco da resistência . Ao entrar na rua Sergipe ele se deparou com um morador vizinho,senhor Alberto , que varria a calçada . - Bom dia Enrico .- disse o homem - - Buongiorno senhor Alberto . - responde Enrico - - Esta frio hoje . - Si ! Mas minha Itália é muito mais fria . - Essa noite tive que colocar dois cobertores na cama rapaz - dizia o vizinho - não estava fácil ! - Dormimos eu,Luna e minha bambina para esquentar .- responde Enrico - - Mi scusi ( com licença ) senhor Alberto,estou indo mangiare . - " Almoçar " ,Enrico,almoçar .- diz o senhor - - Si..." almôzar "- responde Enrico - - Não,não..."AL- MO - ÇAR" ,almoçar.- repete o senhor - - Certo - diz Enrico - " almôçar " ! Os dois riem,Enrico se despede e segue seu caminho . Enrico entra pelo portão .Ele estranha o fato de não sentir o cheiro da comida,do molho quente . Imaginou que devido ao frio Luna estivesse com a janela da cozinha fechada . Abriu a porta da sala,outra surpresa . O silêncio dentro da casa era quebrado apenas pelo sussurro do rádio na cozinha . Nem choro de criança,nem discussão entre Luna e dona Jacalina Nada do cheiro da comida . Teria Luna atrasado ao almoço ? " Non credo che lei ha fatto il cibo!"( Não acredito que ela não fez a comida !) - pensa Enrico - - Luna ! Luna ! - chama ele entrando pela sala - - Mama...Luna ... Enrico vai em direção a cozinha . - Luna,dove sei ?( onde esta você?) Enrico entra na cozinha . - Luna ?? Nisso,ele depara com o corpo de sua mãe no chão,encostado na parede . O sangue que escorrera de sua cabeça havia secado e se tornado escuro . Ele havia penetrado nos vincos da pele do rosto da idosa,dando um aspecto repugnante a assustador . - Mama !! - grita Enrico - Ele corre e se abaixa ao lado do corpo da mãe . - Mama...mama !!!- grita ele sacudindo o corpo da mãe - Seu pé escorrega na poça de sangue . Ele olha ao redor e vê o rolo da massa sujo de sangue sob a mesa . - Luna !!! Luna !!!- berra Enrico em desespero - Enrico se levanta e sai da cozinha aos berros . O pé sujo de sangue deixa marcas no chão ! - Luna !!!Luna !!! Dove sei,bastarda !!!!??? Enrico vai em direção ao seu quarto . Ao chegar na porta ele olha diretamente para o berço de Bianca e vê o travesseiro sobre o corpo da menina . - Dio santo !!! ( Santo Deus !) - grita ele correndo para o berço - Enrico pega o corpo de Bianca e o acolhe em seus braços . - Bambina mia...bambina mia !! - grita ele - - Luna !!! - grita Enrico - - Luna !!! Luna !!! Enrico não percebe,mas Luna esta dependurada pelo pescoço a poucos metros atras dele ! O corpo da moça move-se lentamente de um lado para o outro na ponta da corda . - Luna !!! - grita Enrico - Ele começa a se virar,ofegante,olhar desesperado ! - Luna !!!Lu... Enfim,Enrico vê o corpo de Luna pendurado no caibro de sustentação . A boca dela esta entreaberta,lábios arroxeados . Os olhos estão abertos e olham diretamente para Enrico ! O grito de horror dele ecoa pela rua . Algum tempo depois uma multidão se aglomera diante da casa de Enrico . Uma ambulância e um carro da policia estão no local. O repórter de um jornal local também chegava ali. Alguns vizinhos entre eles senhor Alberto estão junto a Enrico que esta sentado na escada da varanda da casa . Ele segura o corpo de Bianca nos braços e faz movimentos de vai e vem como que se ninando a criança . Seu olhar é perdido e sem vida . O policial conversa com o patrão de Enrico,dono da peixaria . - O senhor tem certeza de que ele estava bem,estava normal ?- pergunta o policial - - Sim - responde o homem - ele trabalhou normalmente na parte da manhã,estava normal,perto do meio dia ele saiu para vir almoçar como faz todos os dias . - O senhor viu se ele bebeu alguma coisa? - Não ! Enrico nunca bebeu no horário de serviço ! Ele é um bom rapaz ! Muita comoção e comentários entre as pessoas . Os vizinhos não conseguiam acreditar no ocorrido . Um segundo policial ajudava os homens da ambulância a colocarem os corpos de Luna e Jacalina dentro do veículo . Eles conversam com senhor Alberto que em seguida se aproxima de Enrico . Ele começa a medir palavras para falar com o rapaz . - Enrico...Enrico,meu filho...você precisa entregar a Bianca para esses senhores ... - Mia figlia é malata . ( Minha filha esta doente ) Alberto não vê outra saída senão compactuar com o delírio de Enrico . - Então Enrico...você precisa entregar a menina para eles cuidarem dela...entende? - Eles vão...curar minha bambina ?? - Sim ! - responde senhor Alberto com lágrimas nos olhos - Eles vão levar sua bambina e vão cuidar dela... Comovido com a situação de Enrico o dono da peixaria arca com as custas dos enterros e cede espaço no túmulo de sua família no cemitério da Consolação . Ao final do enterro os vizinhos retornam para suas casas,senhor Alberto acompanha Enrico ate o portão . - Enrico,tem certeza de que não quer ficar na minha casa durante algum tempo? - Si...eu tenho que ficar em casa... Enrico entra na casa e fecha a porta da sala . Dali por diante ele não iria mais ao trabalho,não sairia mais na rua,não trocaria a roupa e nem tomaria banho . Em comum acordo os vizinhos resolvem levar comida para ele . Eles colocavam um prato com a refeição junto a porta da sala na varanda e sentiam-se aliviados quando na entrega da refeição seguinte encontravam um prato vazio no lugar . A casa fechada deixava o ar infecto . O odor de bolor e sujeira imperavam no local . Enrico ficava sempre no mesmo local da casa,na cozinha . Ele ficava sentado junto a mesa onde Luna preparava a massa do macarrão todos os dias . Seu corpo ficava largado sobre a cadeira,cabeça pendendo para o lado,olhar no vácuo . Seus cabelos estavam emaranhados,a barba por fazer e sua pele tomava um tom ocre . Mas Enrico não estava sozinho ! Junto dele estavam os espíritos de Luna e dona Jacalina . Luna mantinha-se ao seu lado,corpo ereto,braços ao longo do corpo,a cabeça inclinada com a boca entreaberta,olhos brancos sem vida . Dona Jacalina aparecia atras dele,cabelos revoltos e os sulcos da pele do rosto marcados pelo sangue pisado . A presença delas pesava o ambiente provocando um chiado constante nos ouvidos de Enrico . Elas os faziam ficar cada vez mais deprimido,mais arrasado ! Elas minavam a vontade dele de viver ! Alguns dias se passaram . Os vizinhos se preocupavam com a situação de Enrico . O dono da casa havia ido ate o local para tentar resolver a situação de seu inquilino. Ele conversava com o senhor Alberto . - Eu compreendo a situação do rapaz - dizia o dono da casa - mas ,essa casa é minha fonte de renda...não posso ficar sem receber o aluguel . - Quero pedir ao senhor que tenha um pouco de paciência - dizia Alberto - ele passou por algo terrível ! - Eu sei,eu sei,mas,quanto tempo ele vai ficar ai ?Ele não recebe ninguém,não fala com ninguém... - Olha - diz Alberto - eu vou conversar com a vizinhança e vou levantar o valor de um aluguel e eu pago mais um por minha conta...isso alivia o senhor? - Ah sim...veja bem,eu tenho pena do rapaz,entenda,mas é que eu preciso mesmo do dinheiro desse aluguel... Ao entardecer daquele dia,Enrico estava sentado na cozinha . Ele havia acabado de comer o almoço que alguém deixara na porta da varanda . Os espíritos de Luna e Jacalina estavam ao seu lado . A influência delas fazia com que Enrico senti-se calafrios e dores pelo corpo . Em dado momento ele se levanta e vai ate um pequeno armário de madeira . De la ele retira uma lata com rótulo verde . Enrico manteve-se ali de pé por um bom tempo . Ele olhava fixo para a lata,lia e relia as escritas no rótulo . " VENENO PARA RATO ". Enrico volta para a mesa . Suas pernas arrastam o agora pesado tamanco de madeira . Ele se senta á mesa ,uma barata passeia por ali . Sobre a mesa há um copo sujo e uma moringa dágua . Enrico pega o copo e em seguida a colher que havia acabado de usar para comer seu almoço . Ele abre a lata com o auxílio do cabo da colher . Os dois espectros estão ao seu lado . Enrico coloca algumas colheradas de veneno no copo ,em seguida,completa o copo com água . Ele mexe o conteúdo com a colher e a larga no chão . Enrico levanta o copo a altura dos olhos e o observa como quem admira um diamante raro ! Os espectros estão ao seu lado. Enrico leva o copo próximo a boca . Seus lábios estão rachados,feridos... Em um único gole ele toma o conteúdo do copo,largando-o vazio sobre a mesa . Começou como uma revolução em seu estômago,uma acidez,uma dor aguda ! Pulsações tomaram conta do seu pescoço e das têmporas . Seu coração disparou no momento em que sua traqueia se fechou e o ar não conseguia passar mais ! Em uma violenta convulsão Enrico chutou a mesa e tombou da cadeira batendo violentamente a cabeça no chão de cimento queimado ! Ele grunhia tentando respirar,seus braços se contorciam,seus dedos se fechavam em garras ,enquanto os pés se esfregavam de forma frenética atirando os tamancos para lados opostos ! Uma última contorção,uma mancha de urina aparece no tecido da calça! O corpo se estica,seus braços estão torcidos e a baba branca e abundante que sai de sua boca contrasta com o olhar de pânico! Enrico fica imóvel . Os espectros estão ali...eles fazem parte da casa... Cai a noite . Na tarde do dia seguinte algumas senhoras vão ate a casa do senhor Alberto . - Tem certeza de que ele não comeu ?- pergunta Alberto - - A Rosa colocou a janta dele ontem e o prato amanheceu no mesmo lugar - dizia uma senhora - depois,a Ilda levou o almoço e deixou la...nós fomos ver agora e esta do mesmo jeito senhor Alberto,dai achamos por bem avisar o senhor . - Vocês fizeram bem ! Obrigado ! Eu vou ver o que esta acontecendo ! Alberto saiu de casa e acompanhado pelas mulheres atravessou a rua e se aproximou da casa de Enrico . - É melhor as senhoras ficarem aqui...não sabemos o que pode estar acontecendo . Alberto abre o portão e entra . Ao chegar na porta da varanda ele se mantém cauteloso . Mesmo com ele Enrico não se mostrava muito amistoso nos últimos dias . Alberto bate na porta . - Enrico,Enrico ! - chama ele - - Enrico...é o Alberto...eu vou entrar um pouco,tudo bem? Nenhuma resposta . Alberto abre devagar a maçaneta da porta . - Enrico...estou entrando...com licença... O cheiro de mofo e o ar estagnado invadem os pulmões de Alberto . Aos poucos ele começou a sentir outro cheiro,um cheiro pútrido que vinha da cozinha . - Jesus Cristo...o que é isso ?- disse ele para si mesmo - - Enrico...você esta ai?? Alberto atravessa a sala e se dirige para a cozinha . - Enrico ??? Ao entrar na cozinha Alberto se depara com o corpo de Enrico no chão . O cheiro já se torna insuportável ! Alberto vê a lata de veneno e o copo sobre a mesa e a colher no chão . Inconformado ele murmura : - Ah Enrico...o que você fez meu filho?? Alberto olha ao redor,ele não pode ver os espectros na cozinha. Ele leva a mão ao nariz na tentativa de amenizar o cheiro pútrido e sai .
Mais uma vez um grande número de pessoas se aglomerava diante da casa da rua Sergipe . O corpo de Enrico fora retirado do local e enterrado junto aos corpos de Luna,Bianca de Jacalina no túmulo da família do peixeiro . A casa ficaria fechada por alguns meses ate que o cheiro desaparece-se . Como não conseguia alugar o imóvel,o dono da casa manda fazer uma pequena reforma . Ele mandara colocar cacos de cerâmica no chão da cozinha para esconder a mancha de sangue deixada por Jacalina pois nada do que se fise-se conseguia tirá-la . Como não era muito amigo de gastar dinheiro,mandou que as paredes fossem pintadas com cal . A casa voltaria a ser alugada apenas em 1910 . Um jovem casal a teria alugado para começar a vida. Antes do terceiro mês eles começaram a sentir mudanças no relacionamento. O rapaz mostrava-se irritadiço ,sentia odores fétidos pela casa e reclamava com a esposa acusando-a de não limpar a casa direito. Certa manhã ele teria tido a impressão de ver um homem usando paletó escuro e tamancos andando pelo quintal. Ele o teria visto pela janela da cozinha,mas ao sair para o quintal para verificar não encontraria ninguém. Sua esposa começava a ser acometida de dores de cabeça,as vezes sentia uma pressão no pescoço que a impedia de respirar direito. Certa noite ela teria visto três vultos dentro da cozinha,no momento em que entrava ali para beber água . Ela teria comentado esses fatos com as vizinhas que,mesmo com os apelos do dono da casa não acharam certo ocultar dos novos moradores os terríveis fatos ocorridos no local anos antes. Após conversar com seu marido ambos decidiram deixar a casa . O dono da casa fez novas reformas e a casa voltaria a ser alugada em 1919 . Um casal com um filho,uma criança de um ano,mudaria para la . Os mesmos fatos começaram a ocorrer,odores fétidos,substâncias gosmentas e mal cheirosas que apareciam pelos cantos . O filho do casal,antes uma criança sadia e serena tornara-se inquieta e chorava o tempo todo . Mais uma vez o homem de paletó escuro teria sido visto andando pelo quintal . O casal acharia que se tratava de um ladrão . Certo dia uma amiga da jovem que ali morava viera visitá-la . Ela bate palmas diante do portão,a moradora da casa aparece na janela da sala e diz : - Entre Rosilda,eu estou na cozinha . Ela volta para a cozinha a dar continuidade aos seus afazeres . Ela ouve a porta da sala se abrindo e ouve também a voz de sua amiga dizendo " Bom dia " na sala . - Eu estou aqui Rosilda . - diz a moça enquanto corta alguns legumes. Sua amiga entra na cozinha,elas se cumprimentam com uma troca de beijos no rosto . Rosilda comenta sobre o calor do dia e de como o bonde estava cheio . Nisso ela pergunta : - É sua irmã aquela moça do avental? A outra mulher a olha com espanto . - Que moça com avental ? - pergunta ela - - Uma moça que vi entrando no seu quarto agora...eu não pude ver o rosto,eu a vi apenas pelas costas,mas vi nitidamente que usa um avental amarrado na cintura . A outra moça solta a faca sobre a mesa assustada . - Deus do céu Rosilda,não ! Não há ninguém aqui comigo ! - Eu juro que vi...acabei de vê-la,ate disse bom dia,mas ela entrou no quarto sem responder . - Cruz credo ! - exclamou a dona da casa fazendo o sinal da cruz - Sera que entrou alguém aqui e eu não vi??? - Vamos nós duas la olhar ! - diz Rosilda - Elas vão em direção ao quarto com passos cautelosos . A dona da casa leva uma vassoura nas mãos . Ao chegarem perto da porta a dona da casa diz: - Olá??Tem alguém ai??? Com o cabo da vassoura ela afasta a porta do quarto . - Oi ??Tem alguém ai ?? Ela tateia a parede com a mão a procura do interruptor de porcelana e acende a luz . Ambas entram ao mesmo tempo,Rosilda olha atras da porta . Nada ! - Não tem ninguém . - diz a dona da casa - - Eu juro que vi...não estou ficando louca ! - diz Rosilda - - Ela pode ter saído pela porta dos fundos . - insiste - - Não ! - diz a dona da casa - depois que o meu marido viu um homem andando no quintal ele mantém a porta dos fundos trancada ! Barulhos noturnos na cozinha,sons de passos,odores fétidos. Sempre que entrava em casa o jovem rapaz começava a sentir náuseas ,dores agudas no estômago . Certa noite a mãe do menino teria acordado durante a madrugada e com a fraca claridade do abajur ela teria visto nitidamente uma mulher ao lado do berço de seu filho . Ela acorda o marido aos gritos,mas não há mais ninguém la ! Mais uma vez as vizinhas acabam por contar a moça o ocorrido na casa e semanas depois o casal se muda . O dono da casa falece e a casa permaneceria fechada . Durante a revolução de 1932 em uma noite fria de junho um grupo de combatentes procura refúgio dentro da casa. Eles se reúnem no quarto e fazem uma pequena fogueira dentro de uma lata para se aquecerem . O grupo esta no quarto descansando enquanto um homem monta guarda na janela da sala . Eles conversam baixo entre si enquanto comem a ração . Um deles esta sentado encostado na parede . Ele segura a lata de ração em uma das mãos e um colher na outra . Seu olhar esta fixo no canto superior da parede do quarto . Um outro soldado nota essa atitude e se aproxima . - Jardel ??Jardel ???O que foi soldado??? Outros homens se aproximam agachando-se ao lado . Eles olham para o canto da parede mas nada veem . - Jardel - insiste o primeiro - o que você esta vendo ?? - Vamos procurar outro abrigo sargento - responde o homem - essa casa não é boa ! Um soldado que esta mais atras cochicha no ouvido do companheiro ao lado : - O que foi ?? - O Jardel tem o dom de ver " coisas "...bruxas,fantasmas ... - Misericórdia ! - diz o soldado - O soldado Jardel se levanta colocando a tampa em sua lata de ração . - Vamos sair daqui sargento...não estamos sozinhos aqui e essa casa não é boa ! O sargento fixa o olhar no canto superior da parede,mas não consegue ver nada . Mesmo assim ele resolve acatar a sugestão de Jardel . Ele acreditava na existência de almas do outro mundo . - Vamos sair ! Vamos andar mais um pouco e encontrar outro abrigo ! Mesmo exaustos os homens obedeceram . Eles apagaram o fogo ,pegaram suas mochilas e saíram do quarto. Jardel saia por último. Enquanto caminhava em direção a porta ele mantinha o olhar no canto da parede ! Ali ele via algo,algo horrível e assustador ! Era Enrico que se mantinha suspenso no alto do canto da parede como se fosse uma aranha ! Seu corpo emitia uma fosforescência esverdeada que dava destaque as órbitas negras dos olhos e a boca retorcida . Assim como Jardel olhava para ele,ele também acompanhava Jardel com o olhar ! No início dos anos 40 o filho do falecido dono da casa assume sua herança e resolve reformar a casa . Ele faz modificações na planta para que o imóvel tome um aspecto mais moderno . Já se passavam trinta anos desde o ocorrido na casa da rua Sergipe e a maioria dos vizinhos que conheciam a historia ou haviam se mudado ou haviam morrido . Apenas uma senhora de nome Célia ainda morava na mesma rua Um trabalhador de nome Pedro estava deitado com metade do corpo dentro de um gabinete de pia . Ele instalava o móvel na cozinha da casa . Ele havia encontrado uma dificuldade para instalar o sifão(1) de escôo da água e precisava do grifo(2) para dar os ajustes finais . Soltar a peça para pegar a ferramenta que estava do outro lado da cozinha seria perder horas de trabalho e ter recomeçar tudo ! Ele ouve passos no corredor,passos de alguém que arrasta os pés. Na posição em que se encontrava ele não conseguia ver quem andava por ali . Ele então chama : - Zé ??Zé ?? O Zé ,pegue o grifo no chão para mim por favor,eu não posso soltar o sifão. Pedro ouve os passos se arrastando dentro da cozinha e em seguida ,ele os ouve vindo em sua direção . Ele segura firme a peça do sifão com a mão direita e mantém o olhar na mesma . Ele então estende a mão esquerda para fora do móvel esperando receber a ferramenta . Ele sente o frio do ferro tocando sua mão e então ele segura a ferramenta . - Obrigado ! - diz ele encaixando a ferramenta na peça . Assim que começa a fazer o ajuste ele começa a sentir um odor fétido.Então ele nota que a ferramenta esta coberta por uma substância pegajosa . - Mas que droga é essa ???- diz ele enfurecido - Pedro solta o grifo e sai de baixo do móvel . Ele cheira a mão e faz um ar de repulsa . - Que bosta é essa ??? - diz ele passando a mão na camisa - - Zé !!!- grita ele - O Zé !!! Que brincadeira besta é essa ??? - Zé !!! Pedro sai da cozinha com passos determinados ! - Zé !!! Cadê você ??? Ele vai em direção da porta dos fundos da casa ,ao chegar ali ele ainda consegue ver um homem de paleto escuro saindo pela porta para o quintal . - Zé ??? O Zé ??? Pedro vai ate o quintal,mas não vê ninguém ! Ele volta em direção da porta da rua. Esfrega a mão suja nas calças e a cheira,fazendo novamente a cara de repulsa ! - Filho da puta,brincadeira sem graça !! - esbraveja ele - Ele abre a porta da sala e sai para o quintal que da para a rua . Nisso,ele vê dois homens que vem pela rua . Um deles traz rolos de fios elétricos dependurados nos ombros e o outro traz um saco de cimento no ombro e uma sacola em uma das mãos . - Zé !!! - berra Pedro do portão - - O que foi homem ??- diz o rapaz que carrega o cimento - - Você me entregou o grifo sujo com uma merda fedorenta !!!Isso não é brincadeira que se faça !!Eu não sou moleque !! Os dois homens na rua se entreolham . - Estou chegando agora rapaz ! Eu e o chico fomos buscar fio e cimento e passamos no bar para pegar o almoço...eu não fiz nada não ! - argumenta Zé - Pedro percebe que há algo errado . Ele se volta para a casa e um calafrio corre pelo seu corpo .
" Marta arrumava o arranjo de flores no vaso de louça . Ela adorava flores por isso havia infestado a casa nova com elas. Estava feliz por vários motivos. Primeiro,a casa nova que ela e seu marido Isael haviam acabado de comprar . Uma bela casa de três quartos com garagem no bairro da Consolação . Segundo,a sociedade que o marido advogado havia feito com um grande escritório no centro,ali perto,na Praça São Bento. Terceiro,a estação do ano que ela mais gostava,a primavera,estava começando . Dez anos de um casamento perfeito ! Os planos do casal estavam se concretizando e o próximo objetivo para o ano vindouro,1943,seria o primeiro filho ! A casa era nova ( havia sido totalmente reformada),piso quadriculado na cozinha e no corredor,tacos nos demais cômodos. As paredes eram brancas e aveludadas,o acabamento era impecável ! Quando seu marido Isael visitou o imóvel ficou apaixonado ! Uma casa daquele estilo,com aquele preço,na Consolação,próxima a avenida,um bairro promissor que crescia ,bairro classe média alta,era um negocio da China ! Ademais,pouco mais de dois quilômetros afastada do centro ! Fizeram questão de comprar móveis novos e Isael estava se preparando para trocar seu Chevrolet 1939 por um 1942 ! Marta ouviu o barulho do motor de um carro parando em frente a casa. Em seguida,ouviu passos no quintal da frente. A porta da sala se abre e Isael entra . - Bom dia meu amor . - diz ele beijando Marta - - Veio almoçar cedo . - diz ela - - Ah sim ! Tenho uma reunião as 14:00 horas e não posso me atrasar ! Isael mete a mão no bolso interno do paleto e tira algo dali. - Adivinhe o que é isso ? - pergunta ele sacudindo um pedaço de papel no ar - - Não faço ideia meu amor...o que é? - diz Marta - - Adivinhe ! - insiste ele - Marta sorri e abraça o pescoço do marido . - Eu me entrego ! O que é ?? - A nossa nova rádio-vitrola ! Marta se faz surpresa . - Eu não acredito !! Você comprou mesmo ?? - Sim,comprei ! E eles irão entregá-la em uma semana ! - Meu deus,que maravilha querido !- diz Marta - - Você poderá ouvir suas novelas e eu poderei ouvir meus discos de Yves Montand e Francisco Alves . Eles aproximam os rostos e se beijam . - Ah,mais uma coisa . - diz Isael - - O que meu amor? - pergunta Marta - - Nós vamos ficar sem esse carro ! - responde ele - - Por que? - pergunta Marta surpresa - - Por que em trinta dias estarei com o nosso Chevrolet 1942 ! - responde Isael orgulhoso - Eles se abraçam felizes .Nisso,entra na sala uma mulher negra de quarenta e poucos anos . Era Candida,empregada do casal já a oito anos . - Que maravilha - diz ela - ver os meus " pombinho" tão feliz ! - Venha cá Candida . - diz Isael - A mulher se aproxima e ele a abraça juntamente com Marta . - estamos comemorando muitas coisas boas e hoje,você esta proibida de fazer o jantar nessa casa ! - Por que " seu Fontoura"?Fiz alguma coisa errada ?- pergunta a mulher assustada - Isael ri . - Não minha cara,você não fez nada de errado ! Nós iremos sair os três hoje a noite para comemorarmos tudo isso ! Ao final do primeiro ano a felicidade do casal começava a mudar . A presença negativa dos espectros de Enrico,Luna e Jacalina começavam a afetar o dia a dia deles . Candida começava a sentir dores de cabeça,Isael sentia um mal estar no estômago assim que chegava em casa e o espírito de Jacalina fazia com que Marta fica-se irritada sem causa aparente. Certa tarde ,Marta tentava montar um arranjo de flores sem sucesso . O espectro de Jacalina estava ao seu lado e Marta começava a sentir muita raiva da dificuldade em arrumar as flores . Nisso,Candida entra na sala e diz : - Dona Marta,a senhora precisa me passar a lista de compras para " eu" ir no empório . - Já vou Candida...me dê um minuto e eu faço a lista... - É que " já é " três horas dona Marta,e eu tenho que compra as coisa para fazer a janta... Uma ira incontrolável toma conta do corpo de Marta! Um nervoso,uma raiva muito grande . Ela atira longe as flores que tem nas mãos e grita : - Você não pode parar de me importunar???Você não tem mais o que fazer??? - Eu já disse que vou fazer a droga da lista de compras!!!Sera que você não pode me deixar em paz??? - Dona Marta,desculpa! Eu só queria... - Você não tem que querer nada!!!Fica ai o dia todo me aborrecendo,falando,falando,falando !!!Você me aborrece o dia todo !!! - Me deixe em paz!!!!- grita Marta - Sem nada entender,Candida sai e vai para a cozinha . Candida entra na cozinha.O espectro de Luna esta ali,parado,ao lado da pia . - Gente do céu - pensa Candida enxugando uma lágrima no rosto - eu não fiz nada para ela me tratar assim ! Nisso ela sente um odor fétido na cozinha . Ela olha ao redor e resolve se abaixar para olhar embaixo dos móveis . Quem sabe,poderia ter deixado cair algum pedaço de carne ou coisa parecida por ali . Enquanto ela procura Marta entra na cozinha . - Candida ... Candida se levanta . - Senhora,dona Marta ? Marta tem lágrimas nos olhos .Ela se aproxima de Candida e a abraça . - Me desculpe...eu não sei por que falei com você daquela maneira. - Tem problema não dona Marta...a senhora deve estar cansada...deve ser também essas notícia de guerra que a senhora fica ouvindo no rádio... - Verdade - diz Marta - tenho um primo oficial do exército...em setembro ele ira para a Europa lutar na guerra...minha prima esta arrasada ! - Deus tem misericórdia desse povo dona Marta ! - diz Candida - Marta olha nos olhos de Candida . - Eu vou fazer a lista e você vai ás compras...melhor...iremos nós duas ás compras !Comprarei um algodão doce para cada uma de nós ! Candida sorri . - Eu só estou olhando aqui,por que senti cheiro de coisa podre dona Marta...mas não encontrei nada! Marta aspira apurando o olfato . - Não sinto nada . - diz ela - Certa noite,Marta e Isael estavam á mesa da sala de jantar . Isael empurra o prato sem terminar a refeição . - O que houve meu amor?Não gostou do prato ? - A comida esta ótima,é meu estômago que esta estranho . - diz ele - - Esta sentindo o que? - pergunta ela - - É uma náusea ...uma dor...estranho...no escritório eu não sinto isso... - Eu vou buscar o café .- diz Marta - - E Candida ? - pergunta Isael - - Ela esta morrendo de dor de cabeça...foi deitar-se mais cedo.-diz Marta - - Não, deixe - diz Isael - eu busco o café e aproveito para tomar um antiácido . Isael vai ate a cozinha . Ele vai ate um armário na parede e abre a porta . Pega um vidro de antiácido e vai para a pia . O espectro de Luna esta atras dele . A medida em que o tempo passa o rosto dos espectros fica cada vez mais deformado e horrendo . Luna tem agora os cabelos emaranhados,a pele acinzentada e no lugar dos olhos apenas duas órbitas negras . Isael pega um copo sobre a pia . Ele o enche com água e coloca uma colher do antiácido mexendo em seguida . Assim que leva o copo á boca ele sente a presença de alguém atras de si . Ele pensa ser Marta e se volta sorrindo dizendo : - Resolveu vir pegar o café? Isael vê apenas uma mancha escura que desaparece rapidamente no ar . Ele fica ali parado por alguns segundos,em seguida pega a bandeja com a garrafa térmica do café e a xícara . Ele volta para a sala e coloca a bandeja sobre a mesa . - Tomou o remédio? - pergunta Marta - - Sim ! - responde ele - Marta faz menção de pegar a garrafa onde Isael a impede . - Eu sirvo você . - diz ele - - Obrigada . - diz Marta - Marta leva a xícara a boca . Isael mantém os cotovelos sobre a mesa ,dedos das mãos entrelaçados e o nariz apoiado neles . Ele tem um olhar perdido e de repente sorri . - O que foi meu amor?- pergunta Marta - - Nada...não foi nada...- diz Isael - - Aconteceu algo ? - insiste Marta - - Eu...eu estava na cozinha e...tive a impressão de haver alguém atras de mim...achei que fosse você...eu devo estar cansado...só isso . Marta termina o café. O tempo foi passando e o relacionamento do casal mudava a cada dia. Havia um afastamento entre eles.Marta e Isael não conversavam muito . Em uma noite eles começaram a discutir por um motivo fútil . Começou uma troca de acusações absurdas,cobranças sem sentido. Em dado momento Marta chama Isael de idiota onde ele responde: -"vaffanculo!!" ( Vá tomar no ...!) Marta não fazia ideia do que Isael havia lhe dito e ficou surpresa em saber que ele falava em italiano . Fosse o que fosse,era alguma ofensa! No dia seguinte ela liga para a sua mãe e desabafa . - Foi horrível mamãe ! Nós discutimos e no final ele me disse algo em italiano que eu não entendi ! - Minha querida- diz a mãe do outro lado da linha - vocês devem estar passando por algum tipo de pressão...esta tudo bem na firma dele ? Na mesma semana Marta visita uma amiga dona de uma galeria de arte . Elas conversam sobre vários assuntos e Marta se lembra que a amiga também fala em italiano . - Me diga uma coisa Luiza...quando os italianos brigam e um diz para o outro " vanculo"..." faculo "...o que significa ? A outra moça sorri . - Minha querida,isso é uma ofensa...o termo é "vaffanculo",significa que a pessoa esta mandando você tomar "naquele lugar ". Diz a moça rindo . - Onde ouviu isso?- pergunta ela - - Dois homens discutindo em italiano na minha rua...um deles gritou isso... Marta não podia acreditar em uma atitude daquelas vindo de Isael,um homem tão fino e educado ! Nas semanas seguintes os dois trocavam palavras medidas,respondiam apenas o necessário um para o outro . O clima havia afetado também a relação sexual do casal . faziam três semanas que Isael não procurava por Marta ! Certa noite Marta acorda sentindo um peso sobre o seu corpo. Um sono,um torpor pesado toma conta dela e ela não consegue se mexer ou abrir os olhos . Em dado momento ela pensa estar sonhando,mas depois ela volta a sentir o peso sobre si. Ela pensa que Isael estaria " pedindo desculpas " . Ela se sente zonza e sonolenta . Ela não consegue abrir os olhos,mas sente suas pernas serem afastadas . Estranho!Isael não havia levantado sua camisola ou tirado sua calcinha ! Seria um sonho? Ela sente então a dor da penetração! Uma penetração intensa ,diferente,movimentos antes nunca feitos por Isael ! Ela tenta abrir os olhos...não consegue . Ela geme... A mão que toca o seu corpo é gelada!Gelada e com unhas que ferem sua pele ! Ela geme... Os movimentos são firmes. Marta relaxa o corpo e tenta abraçar Isael,mas não consegue mover os braços . O suor escorre pelo seu corpo,ela geme... Sua nádega é agarrada com força...ela sente dor . Os movimentos aumentam de intensidade ! São fortes! Violentos ! A mão gelada aperta a nádega de Marta,ela geme ! Ela sente um toque em seus seios. Os movimentos aumentam.O prazer se torna em dor . Ela tenta falar,ela une forças e consegue balbuciar : - Você esta me machucando...esta me machucando...esta... Ela sente uma dor apertando o seu seio . Não havia mais prazer nos movimentos e sua nádega também doía ! Marta geme,tenta falar . Ela reúne forças e abre os olhos e no lugar de Isael ela vê o rosto deformado de Enrico ! Um rosto cadavérico,boca aberta ,espumando,órbitas negras sem os olhos . Marta tenta gritar mas não consegue ! Ela então enche os pulmões de ar,aspirando um odor fétido,pútrido,e grita com toda a força ! Ao mesmo tempo ela gira o corpo para o lado e cai da cama ! Isael acorda assustado ! Marta engatinha rápido ate o canto da parede,se senta e abraça os joelhos gritando . Isael pula da cama e vai em direção a ela . - O que foi meu amor???O que foi ??? - Tire ele daqui!!!Mande ele embora!!!- berrava Marta - - Calma meu amor...você teve um pesadelo...calma! - dizia Isael abraçando Marta - Candida entra no quarto assutada . - Por Deus gente,o que foi isso??? - Ela teve um pesadelo ! - dizia Isael - - Tire ele daqui,toca ele,toca ele !!! - berrava Marta _ - Calma amor,calma! Foi só um pesadelo ! - dizia Isael - - Eu quero ir embora ! - diz Marta - Vamos embora,para a sua mãe ou para a minha,mas aqui eu não fico mais!!! Horas depois ela esta deitada em uma cama na casa de sua mãe. A mãe de Marta entra no quarto e se senta ao lado dela . - Isael esta dormindo no quarto de hóspedes e Candida esta no quarto de Antônia. Marta esta deitada de lado,ela fita o vazio . - O que houve minha filha?- pergunta a mãe - - Aquela casa...eu não volto mais para la... - Por que ? - Há algo horrível ali mamãe...só agora eu entendo algumas coisas que vinham acontecendo ! - Você acha que a casa é atormentada?- pergunta a mãe - - Tinha algo horrível sobre mim ,mãe !Eu não volto mais la! - Quer que eu peça ajuda para a sua tia Adélia? - Não sei...não sei como Isael aceitaria isso...ele é agnóstico... Na manhã seguinte os três conversam na mesa do café. - Vocês querem dizer que a casa que compramos é assombrada?- diz Isael - Sera que Marta não teve um pesadelo?? Marta olha para Isael e diz : - Eu ainda sinto aquela " coisa" dentro de mim ! - diz ela esfregando a virilha - - Eu estou me sentindo suja,eu estou com nojo !! - Não há outra explicação Isael .- diz a mãe de Marta - Isael pensa por alguns segundos,em seguida ele segura na mão de Marta e pergunta : - Você irá sentir-se melhor se fizermos isso? - Podemos fazer sim,mas eu não volto mais a morar ali!- diz Marta- Isael suspira. Passados alguns dias Marta,sua mãe e Isael estão diante do portão da casa da rua Sergipe . Já passavam das 18:00 horas e eles aguardavam a chegada de alguém. Passados alguns minutos um carro encosta e quatro pessoas saltam. Uma delas é Adélia,tia de Marta,que é médium . As outras três pessoas também possuíam habilidades mediúnicas. Um senhor com o dom da visão,uma sensitiva e outra receptiva . O grupo conversa um pouco antes de entrar na casa . A porta da sala se abre e Isael acende a luza da sala . O senhor vidente entra primeiro . Ele da alguns passos e para . - Temos alguma coisa Antonio ?- pergunta Adélia - - Temos três presenças aqui...e são antigas...pobres criaturas... Mais tarde,todos estão sentados ao redor da mesa de jantar . Um copo dágua,uma vela acesa e uma bíblia aberta estão sobre a mesa . A tia de Marta orienta para que todos se deem as mãos . A médium receptiva esta sentada á cabeceira da mesa . A tia de Marta invoca a presença daqueles que estão ali e então, o espírito de Luna se aproxima da receptiva. - Alguém quer falar conosco?- pergunta a tia de Marta - - Você pode falar?Você consegue falar conosco?- insiste ela- A médium receptiva faz movimentos trêmulos com a cabeça,então ela começa a falar : - Eu sentia muita dor...muita dor...minha cabeça dói...dói...dói... - O que houve?Por que você esta aqui?- pergunta a tia de Marta- - A velha me irrita...me irrita...me irrita...minha cabeça dói...dói...dói... - O que houve?Você é o que da velha? - Ela é minha sogra...ela me odeia...ela me irrita...ela quer me tirar o meu Enrico... - Você pode nos dizer quem é você? - Meu nome...é Luna...sou italiana...viemos da Itália,viver aqui... Marta então compreende quando Isael a ofendera em italiano. - E o que você fez Luna?- pergunta a tia de Marta - - Minha cabeça dói...dói...dói...ela não para de falar...minha filha chora...eu não devia ter feito aquilo...por que fiz aquilo??? O espírito de Luna se afasta,Enrico se aproxima . - " O que fazem em minha casa? " - Luna?Você ainda esta ai?- pergunta a tia de Marta - - " Io non sono Luna, sono Enrico "!( Eu não sou Luna,sou Enrico!) A tia de Marta entende a mensagem . - Enrico...o que você quer aqui? - " Il bastarda ha ucciso mia madre !" ( A bastarda matou minha mãe !) - " Mia figlia è malata "! ( Minha filha esta doente !) - " Dov'è mia figlia?" ( Onde esta minha filha ?) - " Questa casa è mia, è mia!!"( Essa casa é minha,minha!!) Mais algumas sessões espíritas foram feitas no local na tentativa de afastar os espíritos de Enrico,Luna e Jacalina . O casal Fontoura mudaria dali e a casa seria vendida algum tempo depois junto com as casas vizinhas . Após serem demolidas um prédio de apartamentos seria construído no local . Agosto de 1953... O porteiro do prédio tranca a porta do depósito de materiais e prende o mosquetão do chaveiro no passante do cinto da calça . São 19:40 h da noite e ele vai começar mais um turno . A medida em que anda as chaves fazem barulho chocando-se umas contra as outras dependuradas na sua cintura . Quando ele para para entrar na guarida ele ouve algo atras de si. Ouve o som de passos que arrastam algo feito de madeira. Ele se volta e a uns trinta metros de distância ele consegue ver no fundo do corredor escuro a imagem fosforescente de um homem usando um paleto escuro..."
FIM

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